Seu dragão é inteligente, mas talvez você não seja
Dragões são provavelmente os monstros mais famosos de qualquer jogo de fantasia medieval. Veja bem, o RPG mais famoso de todos os tempos possui desde 1974 “Dragão” em seu nome. Não é por acaso.
Mas da mesma forma, também são, provavelmente, alguns dos monstros mais mal utilizados por Mestres e, sim, desde 1974. Isso acontece por um motivo simples: depois de colocar um dragão diante dos aventureiros, olhar sua ficha e preparar alguns dados de dano, é muito tentador fazer aquilo que fazemos com praticamente qualquer outro monstro: colocá-lo no chão, rolar iniciativa e atacar.
O dragão bafora. Depois morde. Depois usa as garras. Quando a baforada parece uma boa ideia novamente, ele bafora outra vez, e assim seguimos até alguém morrer. Normalmente o dragão.
O problema é que isso transforma uma das criaturas mais poderosas, antigas e inteligentes do jogo numa espécie de lagarto gigante com muitos pontos de vida. E um dragão pode ser muita coisa, mas nunca será só um lagarto gigante com muitos pontos de vida.
O mais interessante é que não precisamos criar nenhuma regra nova para resolver este problema. Não precisamos aumentar sua Classe de Armadura, não precisamos dar mais Pontos de Vida, não precisamos criar ações lendárias, resistências especiais, ataques adicionais, reações, ou qualquer outro recurso para tornar um dragão realmente perigoso. Tudo o que precisamos fazer é usar aquilo que já está escrito na ficha, na sua página do LB3 e, MUITO importante, nos textos de introdução aos dragões publicados nas páginas 44 e 45 do LB3.
Antes de tudo, ele é inteligente
Quando pensamos num dragão, normalmente começamos pela parte errada da ficha. Nosso foco está obviamente voltado para DV, CA, danos e ataques, em especial a baforada. Estes números nos cegam. Muito porque, obviamente, eles importam, mas… nenhuma dessas características é o verdadeiro motivo pelo qual enfrentar um dragão deveria ser aterrorizante.
Dragões são inteligentes. Muito inteligentes. Mais do que eu, do que você, do que aquele seu primo com carreira brilhante que sua tia insiste em esfregar na cara da família em todo almoço de domingo. E nem estou falando em “inteligente” no sentido de conseguirem conversar ou conjurar algumas magias. Estamos falando de criaturas ancestrais que vivem durante eras, conhecem vários idiomas, acumulam riquezas, dominam criaturas inferiores e escolhem cuidadosamente o local onde estabelecerão seus covis. Um dragão adulto não acordou ontem. Um dragão velho, muito menos.
Durante sua existência ele viu aventureiros aparecerem, crescerem em poder, matarem monstros, acumularem tesouros e, eventualmente, decidirem que talvez fosse uma excelente ideia descobrir onde vive aquele dragão da montanha. Seus jogadores não serão os primeiros a ter essa ideia. Ele cresceu lutando contra gente assim. Ele vive por conta de gente assim. Ele juntou seu tesouro por causa de gente assim.
E, se o dragão ainda está vivo, existe uma boa chance de que os anteriores não tenham tido muito sucesso contra ele.
Um dragão não espera na sala 12
O LB3 diz que dragões escolhem cuidadosamente onde estabelecer seus covis. Parece uma frase de efeito pra ocupar espaço na página do LB3, mas eu não escrevi isso à toa. Não é apenas uma descrição, é uma informação tática importantíssima.
O covil de um dragão não deveria ser apenas uma caverna grande o suficiente para acomodar a criatura e uma pilha de moedas no canto. Ele escolheu aquele lugar. Se consegue voar, não terá teto baixo ou saída para o céu. Se gosta de água, será um lugar repleto dela. Se gosta de frio, usará o gelo ao seu favor. Ele SEMPRE fará isso, afinal é um ser experiente e… inteligente!
Se possui uma baforada capaz de atingir vários inimigos, por que escolheria um local cheio de caminhos pelos quais seus inimigos conseguem se espalhar? Se conhece aquela montanha há duzentos anos, por que lutaria numa sala escolhida pelos aventureiros ao invés de empurrá-los para um cenário melhor?
Sempre faça a seguinte pergunta para si ao planejar um encontro com um Dragão: por que este dragão escolheu justamente este lugar para viver?
A única resposta séria deveria ser: por que isso concede vantagem ao dragão.
Dragões são caças supersônicos num mundo de espadinhas
Este talvez seja o erro mais comum. O dragão possui movimento de voo e, ainda assim, começa o combate no chão e permanece ali até morrer.
Por quê fazer isso quando você tem em mãos um verdadeiro TOP GUN? Um guerreiro precisa alcançar o dragão para atacá-lo com sua espada. O dragão não precisa alcançar o guerreiro para continuar sendo um problema. Ao fazer isso ele se torna um alvo ENORME.
Então, jamais coloque seu dragão no chão, a não ser que ele seja forçado a isso. Se não existe uma boa razão para pousar, ele não pousa. Aviões voam, assim como dragões. Mantenha-o no ar. Faça com que passe por eles apenas pelo efeito do medo. Circule o grupo, dê rasantes, passe por eles, observe, espere. A hora de atacar com vantagem vai chegar. E um dragão sabe esperar para atacar quando o risco é mínimo.
Caças supersônicos trabalham com mísseis
O próprio texto dos dragões deixa uma pista excelente sobre como usá-los: a baforada normalmente é empregada no início do combate para causar pânico, mantendo as restantes para momentos oportunos. Faça isso!
E o início do combate nem precisa ser o momento em que o dragão entra andando numa sala e todo mundo lança iniciativa. Pode ser antes, de surpresa. Quando todos esperam surpreender, serão surpreendidos. Assim age um dragão, guardando seus mísseis para a melhor hora.
E observe que a baforada de um dragão vai variar entre as diferentes espécies. Baforadas em forma de cone pedem grupos reunidos de personagens. Baforadas em forma de linha/raio, grupos andando em fila indiana. Nuvens ocupam espaços e serão usadas quando sair correndo for difícil, perigoso ou confuso.
O dragão possui centenas de anos e três baforadas diárias. Você acha que no silêncio do covil, entre uma refeição a base de elfo prepotente e guerreiro imprudente, ele faz o que? Treina, bafora, se aperfeiçoa. Desenvolve técnicas e táticas.
Se o guerreiro melhora no uso de sua espadinha em questão de meses, por que você acha que um ser poderoso, experiente e super inteligente não melhoraria com o enorme tempo extra que tem?
Tensão acima de tudo
Dragões são, em boa parte das vezes, sádicos e perfeitos entendedores das ansiedades mortais. Ele baforou de surpresa e destroçou a empáfia do grupo de aventureiros? Deixou boa parte dos caras feridos e amedrontados? É hora da pausa dramática.
Ele não vai surgir de peito aberto e reluzente como um alvo para trocar tapas, unhadas e puxões de cabelo. Ele vai dar um passo atrás e deixar que o caos e o medo lhe deem mais vantagem.
Assim ele voa, desaparece, mas ainda observa. Ele sabe que sua baforada é um recurso limitado. Ele sabe que alguns aventureiros estudam, que alguns religiosos seriam capazes de saber seus hábitos, poderes e fraquezas ao ler um pergaminho esquecido numa biblioteca qualquer. Desta forma ele a usa apenas na hora certa. Dá aos aventureiros a chance de pensar: “fugimos, continuamos em frente, nos recuperamos ou nos espalhamos?”.
E aí o dragão mostra novamente sua força. Não nos números da sua ficha, mas na combinação das coisas que já estavam escritas nela.
Pegue alguém
A baforada faz os aventureiros se espalharem. Seu voo concede segurança e distância, mas o rasante faz outra coisa. O rasante causa medo, dano e ainda pode permitir que personagens sejam separados do grupo. Imagina o guerreirão do grupo, espada na mão e armadura reluzente, sendo carregado pelas patas do dragão até uma reentrância num paredão de rocha há centenas de metros do resto do grupo? Qual a utilidade?
Poder pegar alguém num rasante muda toda a estrutura do combate. O dragão não precisa necessariamente morder o mago. Ele pode pegá-lo, levá-lo a um local remoto e inacessível durante o combate, ou pode simplesmente deixar o mago escorregar e cair de centenas de metros.
Mate o Mago!
E por falar em magos… Bem… Um dragão inteligente não possui acesso às fichas dos aventureiros. Ele não sabe que aquele sujeito usando um chapéu pontudo possui exatamente 17 Pontos de Vida e uma Bola de Fogo memorizada.
Mas ele vive no mundo. Ele conhece magos. Já enfrentou alguns. Sabem como eles pensam e conhecem as artes arcanas, afinal, ele mesmo é um usuário de magia. Ele não vai deixar o canhão inimigo disparar abertamente enquanto passeia pelo céu. Ele vai inutilizar a artilharia inimiga. Vai destruir o mago. Ele sabe que magos não jogam limpo exatamente porque um dragão não joga limpo!
Mesmo assim: é hora da trocação
Se mesmo assim em algum momento a luta for pro chão, um dragão continua sendo uma força terrível.
A estratégia mais conhecida é cercar o dragão para dividir atenção e, consequentemente, os contra-ataques. Mas se o dragão for um dragão velho…
É certo que ele possui mais DVs, mais CA, mais magias e mais tudo que um dragão adulto, mas tem algo que faz ainda mais diferença: o uso de sua cauda. Ele varre. Ele faz voar todos que tentam cercá-lo por trás. Ele desmonta a posição, inutiliza a estratégia e, aí sim, pode começar a brincar com sua próxima refeição. Assim agem os gatos e também os dragões.
Finalizando: apelar não é trapacear
Existe uma diferença importante entre usar um monstro de maneira inteligente e simplesmente decidir que os jogadores não podem vencê-lo.
Inventar poderes, números, regras e ignorar ideias e resultados dos dados é trapacear. Estruturar uma estratégia no uso de um dragão não. Pode ser uma apelação, mas está tudo ali. Está escrito nos livros. Nada do que falamos aqui adiciona uma única palavra de regra à ficha dos dragões. O que fizemos foi te mostrar que talvez você esteja lendo, mas não esteja entendendo um dragão!
Dragões não chegaram ao topo da cadeia alimentar dos mundos de fantasia agindo como orcs alados com uma azia descomunal. Eles são dragões. Use-os da única forma necessária para tornar aquele dragão absolutamente apelão: jogue como se o Dragão soubesse o que está fazendo.
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