A cidade como masmorra viva

por Antonio Sá Neto
12 de junho de 2026, 10:00
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Notícia

Antes de começar a escrever QUALQUER livro para o OD2 eu começo uma fase de pesquisa para entender o que havia antes. O que foi feito, o que não foi feito e o que eu gostaria de fazer. Com o Guia de Campanha Urbana isso não foi diferente. Muitas horas de leitura, PDFs antigos comprados ou blogs lidos sobre o tema sempre ajudam a traçar um perfil para um novo livro.

Ao terminar essa fase de pesquisa eu tinha uma grande certeza. Eu não queria um livro que ensine a criar cidades. E mesmo tendo ali alguns procedimentos que acabem fazendo isso (como o método de Gotejamento de Dados, que permitirá criar uma cidade bem completinha em menos de 5 minutos apenas usando dados de 6 lados), hoje eu tenho certeza que o caminho foi bem tomado.

E é por isso que o princípio básico do Guia de Campanha Urbana é tratar a cidade como uma estrutura explorável, e não como um pano de fundo narrativo, como normalmente usamos os cenários urbanos.

Em jogos tradicionais, vilas e cidades funcionam como pontos de apoio: locais seguros onde os personagens compram equipamentos, recebem missões e descansam. Essa abordagem reduz o espaço urbano a uma função logística. Aqui, a decisão de design foi inverter esse papel.

A cidade passa a operar como uma masmorra aberta, onde cada deslocamento envolve risco, custo e escolha. Isso exige uma mudança fundamental: substituir descrições fixas por procedimentos de jogo. Ruas deixam de ser apenas conexões e passam a ser unidades de exploração. Distritos tornam-se zonas com identidade mecânica. Edifícios relevantes funcionam como salas com propriedades específicas.

Essa estrutura é sustentada por três pilares operacionais que para quem já conhece o trabalho feito no Guia de Campanha: Ermos, será bem familiar:

  • Tempo como recurso - deslocar-se, investigar, negociar ou descansar consome turnos urbanos. O tempo gasto altera o estado da cidade: guardas mudam de turno, estabelecimentos fecham, facções agem. Ações são modificadas, dificultadas ou não, pelo tempo gasto ou o horário do dia. Uma rua às 3 da manhã é diferente da mesma rua às 15h. A Fauna e a flora são substancialmente divergentes.
  • Informação imperfeita - o mapa urbano nunca é completamente conhecido. Atalhos, áreas perigosas e zonas de influência só se revelam através da exploração ou de fontes indiretas. Isso cria incerteza em todos e incerteza é garantia de diversão.
  • Risco difuso - diferente da masmorra tradicional, onde o perigo é localizado, na cidade ele é distribuído. Um encontro pode surgir de uma patrulha, de um batedor, de um golpe ou de um evento social. Mais uma vez a incerteza dando o ar da sua graça.

Outra decisão importante foi evitar mapas rígidos. Em vez disso, o sistema favorece uma abstração controlada: distritos, pontos de interesse e conexões são definidos, mas o detalhe surge durante o jogo. Isso reduz a preparação do mestre e aumenta a adaptabilidade da mesa.

Você até pode usar o seu Google Maps medieval, com todas as ruas, becos e construções numeradas e legendas, mas o importante é que você poderá aproveitar o livro tão bem quanto, mesmo que não tenha absolutamente nada disso.

A cidade também introduz novos tipos de obstáculos. Portas trancadas e armadilhas dão lugar a:

  • Acesso restrito (status, dinheiro ou influência)
  • Vigilância constante
  • Redes de informação
  • Reputação acumulada

Esses elementos funcionam como “paredes invisíveis” que os jogadores precisam contornar.

Por fim, a cidade como masmorra viva reforça um princípio essencial do Old Dragon: o jogo acontece nas escolhas do jogador, não na proteção do cenário. Não há garantia de segurança. Não há zona neutra permanente. Cada decisão — atravessar um distrito hostil, confiar em um contato, aceitar um atalho — carrega consequências.

A cidade deixa de ser um intervalo entre aventuras. Ela se torna a própria aventura.

Nos próximos artigos sobre o Guia de Campanha Urbana

  • Facções como motor de jogo
  • Rumores como mecânica de investigação
  • Procedimento: como a cidade funciona