1d6 Ganchos para Gnomos em Old Dragon

por João Victor (Convidado)
16 de janeiro de 2026, 10:00

Victor Burgos conheceu o Old Dragon em 2012, e foi cativado pela elegância do sistema. Ele ama jogar de Bruxo e criar abacaxis para jogadores resolverem. Quando não está rolando dados, está caçando assombrações em Recife, PE.

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Notícia

Gnomos. Os desconfiados, mas galhofeiros, habitantes de minas. Se há uma raça fantástica no Old Dragon que os jogadores conheceram antes mesmo de entender o que é RPG, são esses simpáticos baixinhos, de aparência enrugada, que amam seus gorros.

É comum ter contato com bonecos, peças decorativas e ilustrações desses pequenos seres charmosos muito antes de se ver um filme, jogo ou livro de fantasia que apresente seres longevos de orelhas pontudas que vivem em florestas, barbudos rabugentos que moram nas montanhas ou povos de pés peludos habitantes de tocas.

Ainda assim, entre todas as raças apresentadas no Livro I: Regras Básicas e no Livro II: Regras Expandidas, o gnomo é de longe a menos jogada. De acordo com dados do Old Dragon Online, compilados no artigo O perfil do aventureiro Old Dragon, apenas 3,5% dos personagens criados por jogadores são gnomos. Isso representa quase um terço da segunda raça menos jogada dos livros básicos: os halflings. Mas por que isso acontece?

Talvez o motivo seja simples. Se halflings sofrem por serem parecidos demais com humanos, os gnomos sofrem por serem parecidos demais com halflings. À primeira vista, as duas raças são muito similares: ambos são humanoides pequenos, que vivem em vilas afastadas das grandes ambições dos povos maiores (perdoem o trocadilho). Com isso, acaba surgindo uma espécie de “competição” por esse nicho narrativo, e os gnomos levam desvantagem. Enquanto seus colegas de pés peludos podem traçar suas origens a duas das obras mais populares de fantasia — O Hobbit e O Senhor dos Anéis — os gnomos dependem quase exclusivamente da própria descrição do jogo para ganhar identidade.

Assim, para ajudar esses pequeninos a brilharem, faremos a seguir uma exploração do gnomo, mais uma vez combinando as descrições presentes nos livros de Old Dragon 2ª Edição com os dados disponíveis no Old Dragon Online.

Eles são folclóricos

Os Gnomos são inspirados mais diretamente no folclore do mundo real do que qualquer outra das raças básicas. Enquanto elfos, anões e halflings aparecem com frequência em livros, filmes, jogos e séries de fantasia, o gnomo “típico” costuma ser encontrado em artigos de decoração, ilustrações antigas e desenhos animados. E o Old Dragon abraça isso de coração.

Aqui, os gnomos são descritos como seres enrugados, de cabelos claros. Culturalmente, o uso de gorros é motivo de orgulho entre eles. O gnomo é uma criatura retirada diretamente da memória coletiva, e isso pode ser uma fonte praticamente inesgotável de inspiração para jogadores e mestres. Há principalmente dois conceitos presentes na cultura popular: gnomos como elementais e gnomos como seres feéricos.

O nome “gnomo” foi criado na Europa renascentista como uma tentativa de classificar seres elementais — criaturas capazes de feitos mágicos, mas dotadas de corpos físicos. Havia Silfos no Ar, Salamandras no Fogo, Ondinas nas Águas e Gnomos na Terra. É daí que vem muito da personalidade dessa raça no sistema: acreditava-se que eles viviam em minas e adoravam pregar peças em mineradores.

Por outro lado, muitos dos elementos visuais associados aos gnomos — tamanho pequeno, uso de chapéu, viver nos campos — remetem diretamente às lendas feéricas. É fácil associar esse povo a histórias antigas de reinos além do horizonte, onde o tempo flui de maneira estranha e o maravilhoso é a regra.

Resgatando esse imaginário, convidamos os jogadores a se perguntar: que lendas os seus personagens gnomos conhecem? Aqui, podemos dispensar tabelas — certamente vocês sabem quais histórias se encaixam mais nos seus gostos, de gorros mágicos a gnomos presos em garrafas.

Eles são variados

Ok, isso é um pouco trapaça da minha parte, mas, como mencionado anteriormente, os gnomos não possuem uma âncora direta na literatura fantástica. Isso significa que jogadores não contam com um personagem referencial forte — como, por exemplo, os jogadores de elfos têm Legolas, de O Senhor dos Anéis.

Essa ausência de uma referência dominante abre mais espaço para trabalhar conceitos variados de gnomos em mundos de fantasia sem que isso cause estranhamento. Na seção anterior, já mencionamos duas possíveis origens, mas nem mesmo é necessário estabelecer uma resposta definitiva. Dito isso, convidamos os jogadores de gnomos a refletirem: quais são as crenças do seu personagem sobre o próprio povo?

A seguir, algumas sugestões de crenças possíveis:

  1. Elemental: seu personagem acredita ser refugiado do Plano Elemental da Terra, e acredita que os anões também tenham vindo de lá.
  2. Feérico: seu personagem acredita ser originário de um plano feérico e acredita que os elfos compartilham essa mesma origem.
  3. Fugitivo de monstros: seu personagem acredita que gnomos e halflings descendem de uma espécie muito antiga — os Elois — que fugiram de um povo monstruoso há séculos. Ou seriam séculos no futuro?
  4. Viajantes de outros mundos: seu personagem acredita que gnomos e outras espécies do mundo são mutantes, descendentes de humanos que chegaram à Terra em eras esquecidas.
  5. Irmão dos elfos: seu personagem suspeita que seu povo seja um híbrido, à semelhança dos meio-elfos.
  6. Convencional: seu personagem acredita que seu povo foi criado pelo panteão, sem mistérios ou teorias alternativas.

Eles são mineradores por vocação

Os gnomos do Old Dragon são descritos como exímios mineradores e artesãos de joias — tanto que Avaliar Bens é uma habilidade inata da raça. E, de fato, isso por si só já rende inúmeras ideias de aventura.

É fácil imaginar um gnomo convocando aventureiros para libertar uma mina infestada de monstros, escoltar um carregamento de gemas até uma cidade distante ou recuperar um artefato lendário. E quem sabe quantas masmorras hoje perdidas pelos ermos não começaram, originalmente, como minas gnomas?

Por outro lado, fazendo aqui o papel de estraga prazeres, não é possível se alimentar de gemas e joias. Isso abre espaço para uma reflexão interessante: quais outras atividades os gnomos desenvolvem dentro de suas comunidades para sobreviver? E, talvez mais importante, eles realmente gostam disso?

Eles são conjuradores natos

Este ponto é quase um atestado ao peso da bagagem cultural dos jogadores. Na descrição do gnomo no LB2, não há uma única menção direta à magia, tampouco qualquer habilidade racial especialmente voltada para magos ou outros conjuradores. Ainda assim, isso não é o que vemos nas fichas do Old Dragon Online.

Com aproximadamente 42% dos gnomos criados como magos e 26% como clérigos, eles se tornam, de longe, a raça mais associada à magia no Old Dragon — e isso ocorre puramente por escolha dos jogadores. Para ilustrar, vale compará-los com outra raça tradicionalmente conhecida por serem mineradores baixinhos: os anões.

Em uma análise a sangue-frio, um gnomo e um anão combatentes são bastante semelhantes. Ambos podem usar qualquer armadura e, devido ao tamanho pequeno, só empunham armas grandes se forem feitas sob medida. A diferença mais relevante é que os anões possuem bônus situacionais contra certos inimigos. Ainda assim, cerca de 66% dos anões são guerreiros de algum tipo, enquanto apenas 13% dos gnomos trilham esse caminho.

A mente coletiva dos jogadores parece favorecer a imagem dos gnomos como seres que recorrem a poderes místicos para resolver situações — algo que soa como um eco de contos de fadas antigos ou mesmo de animações infantis. Isso se reflete até na escolha de especializações: gnomos ilusionistas aparecem como a segunda combinação mais popular dessa raça. Diante disso, convidamos os jogadores a abraçar essa leitura e a se perguntar: como a magia arcana influencia a cultura gnoma?

O que levou seu personagem a se interessar — ou não — por trilhar o caminho da magia?

Para você a magia é…

  1. Estudo: você encara a magia como um campo acadêmico, e sua sede por conhecimento o impulsiona.
  2. Prática: você vê a magia como uma ferramenta para compreender melhor a terra e realizar minerações mais bem-sucedidas. É apenas questão de tempo até você criar um feitiço para encontrar gemas.
  3. Uma arte: você trata a magia como meio para criar a rainha de todas as joias — os itens mágicos. Seu sonho é, um dia, forjar artefatos lendários.
  4. Guerra: para você, a magia é antes de tudo uma forma de autodefesa. Depois que inventaram bolas de fogo, a esgrima virou esporte!
  5. Sinistra: você tem uma visão incomum entre os seus e teme a magia, desconfiando de seus efeitos e consequências.
  6. Divertida: fã de ilusionistas, você é fascinado em criar truques para entreter as massas.

Tem muitos sacerdotes (e muitos druidas)

Este tópico dialoga diretamente com o anterior. Os gnomos são a raça com, proporcionalmente, mais sacerdotes no Old Dragon Online e ainda apresentam uma peculiaridade interessante: junto de elfos e halflings, são as únicas raças em que o número de druidas se iguala ou até supera o número de clérigos.

Acredito que isso ocorra por dois motivos principais. Primeiro, o druida evoca religiões antigas e tradições ligadas ao campo e à natureza, elementos que combinam muito bem com a imagem do gnomo. Segundo, o druida não pode usar armaduras pesadas nem armas de metal, o que resulta em uma estrutura menos voltada para o combate direto do que a do clérigo — reforçando, mais uma vez, a leitura do gnomo como um ser astuto e pouco afeito à força bruta.

É claro que é perfeitamente possível jogar com um druida extremamente agressivo e subverter essa expectativa. Em níveis mais altos, inclusive, há um contraste divertidíssimo em usar a habilidade Transformação para converter seu pequeno gnomo em um elefante e fazer o chão tremer. Ainda assim, de modo geral, o gnomo druida é o mais próximo que se pode chegar de jogar com um “espírito da floresta” dentro das regras básicas do Old Dragon*: um pequeno ser, profundamente ligado à terra, conhecedor das matas e capaz de assumir formas animais.

*Se você quiser se aprofundar ainda mais nesse conceito, o Guia de Campanha: Raças apresenta regras para diversos outros povos com essa pegada, como Duendes, Pixies, Treants e outros.

Isso não significa que outros tipos de sacerdotes não rendam personagens igualmente interessantes. Clérigos e acadêmicos podem representar figuras sábias, guiando suas comunidades ou dedicadas à busca incessante por conhecimento. Xamãs, por sua vez, expressam uma relação mais pragmática com a natureza — e pode ser muito interessante pensar qual animal guardião um gnomo teria.

Já os proscritos são estatisticamente ausentes. E que os Drakolds me mordam se isso não for mais um indicativo de como os jogadores de gnomos os enxergam: um povo sábio e bucólico, que não se deixa afundar em desespero ou crises de fé. O que, sinceramente, só aumenta minha curiosidade em ver mais gnomos proscritos nas mesas.

E falando em quebrar estereótipos…

Eles são… Bárbaros?!

Um dos dados mais curiosos do Old Dragon Online é que, entre os Gnomos combatentes, guerreiros aparecem empatados com bárbaros. Gnomos bárbaros. Não é um conceito engraçado?

O Bárbaro “ideal” é quase a negação total da ideia do gnomo. Ao ouvir a palavra bárbaro, pensamos em um brutamontes sem nenhuma paciência com magia, vivendo nos ermos do mundo e rejeitando a decadência da civilização — não em uma pequena criatura, bucólica e ligada a poderes místicos. Um gnomo bárbaro soa quase como uma contradição… E é justamente isso que o torna tão divertido de jogar.

Mas e o “quase” do parágrafo acima? Pois bem: por mais divertido que seja imaginar uma gnoma de aproximadamente 1,5 metro de altura, que mais parece uma vovozinha, bancando Conan, o Destruidor, justiça seja feita — o bárbaro do Old Dragon 2ª Edição tem, sim, pontos em comum com os gnomos. Isso se dá porque aqui ele não é apenas um berserker furioso, mas um combatente especializado em sobreviver e lutar nos ermos. Ambos, portanto, compartilham uma forte associação com ambientes naturais, e faz todo sentido imaginar um gnomo usando a furtividade, o conhecimento do terreno e táticas de guerrilha para derrotar inimigos maiores e mais pesados.

Sob esse ângulo, é até possível enxergar o gnomo bárbaro como um tipo de combatente “padrão” de seu povo: alguém que evita armaduras pesadas porque elas atrapalham a movimentação na floresta, e que rejeita itens mágicos não por ignorância, mas por princípio — vê como desperdício ou até como uma profanação de uma obra-prima. Afinal, quantos soldados um nobre não enviaria para a morte em troca de um único artefato mágico recebido como “presente”?

Mas claro, também é fascinante imaginar o que levaria à criação de um gnomo bárbaro? Seria ele membro de alguma comunidade perdida, um sobrevivente que foi afastado da vila e cresceu em outras terras, um simples guerreiro que passou por uma experiência traumática com magia? As opções são infindas!

Quer saber mais?

Pois bem, com isso chegamos ao fim de mais um artigo sobre as raças de Old Dragon. Mas esse não precisa ser o fim de suas leituras sobre gnomos. O sistema oferece diversos materiais para ajudar a aprofundar e expandir a criação de personagens dessa raça.

Quer conhecer em detalhes os gnomos do Old Dragon e ainda ter acesso a regras para torná-los nobres em sua mesa? Confira o Livro II: Regras Expandidas.

Quer mais informações sobre os Gnomos de Valansia, o cenário oficial do Old Dragon 2ª Edição? Então vale conhecer o Cenário de Campanha: Heróis de Valansia.

Quer mais opções de gnomos e ainda contar com regras para criar variações dessa raça? Tudo isso está disponível no Pequeno Guia do Jogador.

E se a ideia for ir além — buscando inspirações para outras raças ou criar sua própria versão de gnomo do zero — o Guia de Campanha: Raças é o material ideal.