Top 5 Piores Tavernas de Valansia
Co-criador do Old Dragon e designer de jogos especializado em aventuras clássicas. Autor de diversas aventuras icônicas do sistema.
Salve pessoal, aqui é Haffa Thehalf, aventureiro de profissão, desbravador de coração e crítico nato das melhores e piores coisas em nossa amada terrinha.
Hoje trago a lista das cinco piores tavernas em que já estive, servindo de alerta para que nenhum de vocês estimados apoiadores das minhas andanças precisem encontrar um dedão de ogro dentro da cerveja ou que tenham seus órgãos roubados nos fundos de uma taverna escura. Acreditem, já estive nesses lugares e não é nem um pouco divertido.
Sem mais delongas, vamos que vamos!
A Colher de Prata
- Onde: Landora, Distrito do Castelo
O que? Acharam que seria no Distrito da Foice ou na Baixada dos Piolhos? Pois se enganaram! Existem lugares horríveis mesmo em meio ao luxo do Distrito do Castelo, sabiam? Meus amigos, se eu fosse escrever sobre as piores tavernas de Landora, eu teria de fazer um livro maior que “As Portentosas Aventuras do Rei Adan Vol. 4”. Claro que existem lugares maravilhosos e requintados, mas esse é assunto para outra resenha.
A Colher de Prata é uma taverna recente, comandada por Axel Gult, um mercador rico que possui mais duas outras tavernas: O Garfo de Prata e A Caneca de Prata1. Contudo, o problema mesmo está na Colher. Enquanto o Garfo e a Caneca são gerenciados por pessoas competentes com experiência na área, o senhor Gult tem ideias estapafúrdias tanto na decoração quanto nos pratos. Faz pouco que encomendou para um grupo de aventureiros que lhe trouxesse uma mantícora para ser empalhada e exibida no grande salão principal.
Após tanto trabalho para trazer a criatura relativamente intacta, o senhor Gult teve a pachorra de trocar as cabeças da criatura por versões metálicas de mal gosto de uma colher, um garfo e uma caneca, simbolizando seus três estabelecimentos. Se os aventureiros não morreram ao enfrentar a mantícora, talvez morressem ao ver o que foi feito dela.
Os preços são altos, mas isso era de se esperar do local. O problema são os pratos especiais criados e servidos apenas por duas semanas. No início essa ideia foi interessante, mas logo a criatividade teve que dar suas voltas e surgiram “lascas de mímico ao molho madeira”, “dedos de troll na manteiga”2 e a terrível “sopa de otyugh”, que causou infecção geral e parece que tem pessoas até hoje internadas aos cuidados de clérigos.
Aventureiros podem aguardar pedidos de captura das mais diversas criaturas e obter um bom dinheiro com isso tudo, mas aconselho a não investigarem sobre o destino final das suas capturas.
1 Parece que teve problemas com a Irmandade do Punhal quando usava o nome original, A Faca de Prata, e por isso acabou mudando.
2 Dizem que ele usou os mesmos dedos várias vezes, pois estes se regeneravam.
Taverna do Dooke (“Me tirou pra Kristos”)
- Onde: Ducado de Kardarin
Pois bem. Seguindo nossa lista, que não respeita ordem alguma, temos a famigerada Taverna do Dooke, conhecida informalmente como Me tirou pra Kristos. Douglas “Dooke” D’anargan é o proprietário, um homem baixo e fanfarrão, sempre contando piadas de gosto duvidoso.
Opositor ferrenho (mas velado) ao Duque Kristos, serve sopas ralas e aguadas, peixes rançosos e frutas que, quando mordidas, fazem “frônc” ao invés de “créc”. Apesar do atendimento suficientemente educado e eficaz, a qualidade da comida está muito abaixo do preço. Mas então o que faz com que o local seja tão bem frequentado?1
Pude observar que em várias noites na semana o movimento aumenta consideravelmente. Em dada ocasião tomei coragem decidi colocar meu capuz e ficar no canto, fumando do melhor tabaco que minha terrinha tem pra oferecer. Observei que Dooke começa uma contagem de participantes, que respondem com palavras aleatórias que me parecem códigos. Para minha sorte Como sou muito inteligente, decifrei o padrão e acertei a senha, e segui com os demais na reunião.
O problema foi que não entendi muito, talvez porque esperei demais e acabei fumando um pouco além da conta. Mas lembro que tinha algo a ver com pontos estratégicos, vigiar a guarda e quais locais o Duque Kristos frequentava. Acho que estavam se preparando para lhe dar uma boa sova de palavras, demonstrando o descontentamento deles em relação ao governo vigente.
Bom, resumindo, é um local até que bonito e divertido, mas com péssima comida. Parece até que não é uma taverna de verdade, e sim uma casa de encontros e bate papos secretos.
1 Não me refiro ao status social das pessoas, mas ao número. Porque geralmente são marinheiros fedorentos, fazendeiros melequentos ou aventureiros seborréicos.
Corvus Oculum
- Onde: Ducado de Valmonte
Em meio a tanta erudição e pompa, Valmonte esconde tavernas excelentes, como a Lança e Escudo, Divina Bebida e Verdadeiro Placebo. Mas não estamos aqui para falar das boas, e sim das ruins.
Corvus Oculum1 é um destes lugares pomposos e metidos a besta, com atendentes de vestes estranhas, bigodes afrontosos e bebidas caras de gosto barato. Para começo de conversa, não serve comidas nutritivas, como carne de porco na banha, coxinhas de perdiz empanadas com queijo ou “buterkatófel”, as deliciosas batatas douradas na manteiga feitas em Steinhus.
Ao invés disso, servem uma bebida amarga e aguada chamada Kaff. Dizem que serve para deixar a pessoa alerta, mais disposta, e a misturam com diversas coisas, como ervas e frutas. Claramente os jovens que frequentam o lugar, sentados com seus grimórios em mesas individuais, adoram essa bebida, consumindo várias doses enquanto estudam para as provas das faculdades.
Ah sim, desculpem, esqueci de falar das comidas. Sim, existem petiscos simples, como grão de bico tostado, palitos de pão tostado com ervas e a única coisa que me agradou, um tipo de biscoito adoçado com mirtilo. Mas nada justifica o preço abusivo, nem mesmo os pratos decorados ou as folhas que decoram os pires.
O pior de tudo é que o atendente não lhe trás seu pedido, ele grita seu nome por detrás do balcão, e VOCÊ tem que buscar seu pedido! Os jovens não parecem se importar, pegando seus pedidos sem ao menos tirar os olhos dos livros.
Por sinal, isso é algo que chamou muito minha atenção. A quantidade de jovens aspirantes às artes arcanas e divinas é bem alta neste estabelecimento. Muitos inclusive não estão preparados para o mundo lá fora, mal acostumados aos mimos e caprichos que seus pais endinheirados lhes proporcionam. Não é raro que contratem aventureiros como “guarda costas”, seja para conseguirem ingredientes místicos, ou mesmo protegê-los dos valentões da Faculdade Terrena.
1 Me disseram que este nome pomposo não está em concordância, mas meu conhecimento não é empregado nestes assuntos pouco relevantes para o bem-viver.
O Caximbo
- Onde: Oxharth
Antes de mais nada, tenho que dizer que Oxharth é minha terra natal, berço das minhas maravilhosas memórias de infância. Mas a vida me levou a outros cantos, novas experiências e grandes saberes. Por isso, não passarei o pano na hora de avaliar O Caximbo.
A casa alta e escura era antes um depósito de grãos usado pela família Bomvento. De origem humilde, Pappa Bomvento era a chefe desta pequena família (não mais de 10 agregados), sempre cuidando dos bens de todos. Dizem que após começar a se aventurar pelo mundo, retornou certo dia com muitas joias e objetos valiosos, mudando com seus familiares para Vanória.
Assim, deixou a antiga casa aos cuidados do vizinho Happo Ventrebaixo, um velho barrigudo e ranzinza. Ele transformou o lugar em um tipo de casa de fumo, que aos poucos foi se modificando para uma “taverna”1. Seus únicos pratos são: cerveja de ervas, leite de cabra, pão de pedra, sopa de legumes e peito de pombo. Todos horríveis, insossos ou incomiveis.
Happo, que aparentemente nem sabe escrever “cachimbo”, não dá muita bola para o serviço. Demitiu os funcionários, e parece manter o local por alguma razão misteriosa. Eu tenho um palpite, mas digo à boca miúda: acredito que Pappa tenha escondido algum tesouro de suas aventuras em algum lugar de seu terreno. Talvez na casa, talvez nas terras mesmo, e de alguma forma Happo está em busca e ainda não o encontrou.
Talvez pela burrice, ou pela falta de habilidade. Talvez tenha algum selo que proteja o tesouro, ou alguma charada2. De qualquer forma, acredito que Happo conta com isso, pois se depender da comida e serviço, está lascado.
1 Com aspas bem generosas.
2 A família Bomvento é famosa por suas charadas divertidas e difíceis.
Luar
- Onde: Anyavar
Esta será uma resenha polêmica. Digo isso porque todo mundo, por algum motivo, parece adorar as tavernas élficas. Comidas leves, saborosas, vinhos ricos e magia por todo lado. Velas que não precisam de fogo, mesas limpas e talheres lindíssimos.
Contudo, vamos falar sobre o Luar. Para começo de conversa, esta taverna fica no topo de uma árvore gigantesca, dificultando em muito a acessibilidade. Acredito que deveriam colocar uma daquelas plataformas que os gnomos usam em suas construções, ou sei lá, deixar um mago de prontidão para nos levitar até o topo.
Mas NÃOOO, tive de subir por uma trilha longa e cansativa, que me fez chegar todo suado e com as pernas doloridas. E depois de tudo, percebi que deixei meu caderno no cavalo, e tive de fazer mais uma vez TOOODO o percurso, ida e vinda.
Bom, falando da comida em si: estava incrível, como esperado, mas atentem que esta matéria não é sobre as piores comidas, e sim, as piores tavernas. Quando cheguei lá, fui muito bem atendido, mas me soou falso. Acho que esperavam que eu gastasse muito, pela minha aparência abastada, e se recusaram a me dar amostras dos vinhos para que eu me decidisse.
Sei que o dinheiro tem significado diferente neste grupo social, mas senti que o atendente queria explorar minhas moedas, adquiridas de meus pais com muito esforço. Ficava me oferecendo serviços extras, como toalhas quentes e massagem nos pés (NOS PÉS, imaginem?).
O que mais me chamou a atenção, fora as audácias e modos mal intencionados dos atendentes, foi o fato de que o patrão do local não compareceu no dia. Todos pareciam preocupados, falando algo sobre o sumiço de seu filho ou algo assim, levando-o a buscar um grupo de aventureiros. Mas não sei, acho que era apenas um truque para manter o local interessante.
Concluindo, espero que tenham gostado desta resenha, que lhes sirva para evitar estes lugares, e que continuem acompanhando meus trabalhos, disponíveis em folhetos e livretos espalhados por toda Valansia! Continuem apoiando seus artistas locais. A comida alimenta o corpo, mas a literatura alimenta a mente1.
1 Algumas criaturas se alimentam de mente, inclusive, então saibam com que alimentar a mente de vocês para não atrair estes perigos!