1d6 Ideias para o Proscrito em Old Dragon

por João Victor (Convidado)
27 de fevereiro de 2026, 10:00

Victor Burgos conheceu o Old Dragon em 2012, e foi cativado pela elegância do sistema. Ele ama jogar de Bruxo e criar abacaxis para jogadores resolverem. Quando não está rolando dados, está caçando assombrações em Recife, PE.

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Notícia

Das 20 classes e especializações disponíveis nos livros básicos da Old Dragon 2ª Edição, nenhuma parece causar tanto estranhamento nos jogadores quanto o Proscrito. Isso pode ser observado até mesmo nos números: segundo dados do Old Dragon Online, o Proscrito é a especialização “livre” — ou seja, que não está atrelada à uma raça — mais impopular do site.

E francamente, é fácil entender o motivo.

À primeira vista, o Proscrito não parece exatamente uma especialização; soa mais como uma punição. Um clérigo que não pode curar adequadamente, que não pode destruir mortos-vivos e que só conjura magias no 10º nível. Qual será a próxima? Um guerreiro que não pode usar armas nem armaduras e precisa lutar apenas com artes marciais?

Mas, claro, as aparências podem enganar. E, se há um traço que define o jogador de Old Dragon, é a capacidade de enxergar oportunidades em situações que parecem desafios intransponíveis.

Assim, em honra à essa especialização incompreendida, dedicar algumas linhas à sua origem, às suas forças e ao potencial narrativo do Proscrito.

Origem

O Proscrito é uma especialização que tem uma função mecânica clara: responder à pergunta “o que acontece quando um sacerdote” — um Clérigo, um Druida, um Acadêmico ou um Xamã — “falha nos mandamentos de seus deuses?”. E essa é uma pergunta importante a ser respondida.

Há muitas formas de um personagem perder seus poderes divinos ao longo de suas aventuras. Dilemas morais, decisões tomadas em jogo ou mesmo itens mágicos amaldiçoados podem levar ao rompimento de seu vínculo com os deuses.

Além dessas situações imprevisíveis — que poderíamos chamar de Proscritos Acidentais — essa especialização também contribui para dar mais profundidade ao mundo de jogo. Afinal, é irrealista imaginar que nenhum sacerdote jamais falhará ou se afastará de sua fé. Esses personagens — que poderíamos chamar de Proscritos Convictos — oferecem muitas oportunidades de interpretação.

Apesar de esses dois arquétipos compartilharem a mesma especialização, tendem a apresentar padrões de jogo distintos. Exploraremos isso adiante, mas antes vamos analisar o esqueleto mecânico dessa especialização.

Mecânicas

Analisar o Proscrito é, antes de tudo, analisar algo que os jogadores já conhecem bem: sua classe base — o Clérigo — é muito forte. E precisa ser. Por serem os curandeiros dos grupos de aventureiros, os clérigos não apenas estão no calor da batalha, como também não poder ser os primeiros a cair. Ao herdar o esqueleto mecânico dessa classe, o Proscrito começa com um “kit” surpreendentemente robusto.

Só por ser um sacerdote, o Proscrito já começa com o segundo melhor Dado de Vida do jogo, a segunda melhor Base de Ataque, progressão de XP igual à do Guerreiro e a capacidade de usar todos os itens mágicos divinos. E, claro, essa especialização não é simplesmente um Clérigo (ou Acadêmico, ou Druida ou Xamã) depenado. Afastar-se dos deuses também traz suas vantagens.

Por não estar preso a nenhum tabu, o Proscrito já começa com uma vantagem que apenas 4 outras especializações do Old Dragon 2ª Edição possuem — Guerreiro, Paladino, Anão Aventureiro e Elfo Aventureiro: acesso a todas as armas e armaduras desde o 1º nível.

E, à medida que evolui, a especialização adquire novas habilidades.

No 1º nível, a habilidade Cura Natural permite ao Proscrito acelerar a recuperação do grupo e, talvez mais importante, evitar a morte de personagens agonizando.

No 3º nível, Treinamento em Combate concede +1 à Base de Ataque (BA) do Proscrito, reforçando sua posição como o mais combativo entre os sacerdotes.

No 6º nível, Afetar Mortos-Vivos permite ao personagem prejudicar ataques de criaturas mortas-vivas.

Por fim, no 10º nível, a habilidade Misticismo possibilita o uso de magias divinas como um Clérigo de 1º nível.

Pronto, agora que temos uma visão geral do Proscrito, devemos responder à pergunta: como jogar com essa especialização? E a resposta pode variar conforme a forma como o personagem chegou até ela — por acidente ou por convicção.

O Proscrito Acidental

O Proscrito Acidental

Como explicado acima, os Proscritos Acidentais são aqueles que assumem essa especialização em decorrência de algum imprevisto durante as aventuras. Há diversas formas de um sacerdote quebrar seus juramentos — algumas delas, como itens amaldiçoados que alteram o alinhamento de seu usuário, podem até ocorrer de maneira aleatória.

Embora, em casos mais leves, o Mestre possa aplicar apenas penalidades temporárias, resolvidas de forma mais simples, infrações graves podem levar um sacerdote a tornar-se um Proscrito.

Para esses jogadores, não há muito mistério: o Proscrito tende a ser um estado transitório, até que encontrem uma forma de se redimir — provavelmente buscando outro sacerdote de sua fé capaz de conjurar a magia Penitência.

Nessas situações, a perda dos poderes sacerdotais altera a dinâmica do grupo. Será necessário aventurar-se de forma mais metódica e cautelosa para compensar a ausência das magias de cura. Ainda assim, o Proscrito é quase uma colher de chá. Sério.

Basta observar as habilidades descritas anteriormente. Por mais que os feitiços e demais poderes façam falta, um Proscrito ainda é muito mais eficiente do que um Clérigo, Acadêmico, Druida ou Xamã completamente privado de suas habilidades. A especialização funciona, nesse sentido, como uma “trava de segurança”.

A habilidade Cura Natural garante que ninguém estará fadado a agonizar até a morte por falta de sacerdotes. Da mesma forma, Afetar Mortos-Vivos oferece uma margem de manobra contra essas criaturas.

E, claro, o acesso irrestrito a armas e armaduras, aliado a Treinamento em Combate, torna-se um bônus relevante durante esse período turbulento do personagem — algo especialmente significativo para Xamãs e Druidas, que normalmente possuem uma seleção de equipamentos mais limitada.

O Proscrito Convicto

O Proscrito Convicto

O outro tipo de Proscrito é o que podemos chamar de Proscrito Intencional. Nesse caso, o próprio jogador decide que seu personagem é um sacerdote que caiu em desfavor com seus deuses. Ou seja, ao menos no curto prazo, ele não buscará recuperar seus poderes divinos.

Desde já, vale uma sugestão: Proscritos Convictos funcionam melhor em grupos que já contam com outro sacerdote — ou, no mínimo, quando o jogador conversa previamente com o restante do grupo sobre sua escolha. Embora o Proscrito possua mecânicas que auxiliem na recuperação, um grupo cujo único sacerdote seja um Proscrito precisará jogar de forma mais cautelosa. Poderíamos até brincar que isso é jogar Old Dragon no modo difícil.

Feita essa ressalva, minha sugestão é enxergar o Proscrito — ao lado do Paladino — como um meio-termo entre o Guerreiro e o Clérigo.

Em um extremo, temos o Guerreiro: o auge do poder marcial em Old Dragon. Capaz de usar todas as armas e armaduras, dotado do melhor Dado de Vida, da melhor Base de Ataque, da habilidade Aparar e da melhor progressão em Maestria em Armas e Ataque Extra.

Avançando um pouco, temos o Paladino, que abre mão da progressão em Maestria em Armas e do Ataque Extra, além de possuir um código de honra e restrições de alinhamento. Em contrapartida, ganha poderes místicos voltados à proteção do grupo e de si mesmo.

Em seguida, temos o Proscrito, que pode ser visto como um combatente que trocou parte do ápice marcial por recursos que emulam habilidades sacerdotais e acesso a itens mágicos divinos. Além disso, o Proscrito recupera liberdade de ação, já que não está preso a alinhamentos ou juramentos.

Por fim, temos o Clérigo, que alcança o pleno poder divino, mas em troca perde a livre escolha de equipamentos e mantém restrições de alinhamento.

Essa comparação ajuda a entender o papel ideal do Proscrito. Com acesso a armas e armaduras, ele é um combatente versátil, capaz de atuar tanto na linha de frente quanto na retaguarda. Em momentos críticos, pode recorrer a seus poderes e ao uso de itens mágicos para complementar sua capacidade marcial.

É tentador dizer que o Proscrito é uma especialização “pato”, que faz um pouco de tudo, mas não se destaca em nada. No entanto, como vimos acima, isso não é verdade. Ele desempenha várias funções quase tão bem quanto os especialistas — e, acima de tudo, é surpreendentemente robusto.

A classe também permite surpreender adversários: poucos esperarão que o “guerreiro” da linha de frente, de repente, saque um pergaminho e conjure uma magia.

E, falando em interpretação, essa é uma especialização para a qual não faltam boas ideias.

Narrativa

“Crises de Fé” é um tema que, à primeira vista, parece mais apropriado a filmes de drama do que a histórias de fantasia heroica — mais próximo de O Sétimo Selo do que de Caverna do Dragão. Afinal, como falar em crise de fé quando quase todo grupo de aventureiros convive com poderes divinos?

É justamente aí que os Proscritos — de ambos os tipos — se tornam interessantes. Eles nos permitem explorar a relação dos personagens com o sagrado de maneira mais profunda.

Os Proscritos Acidentais, enquanto buscam redenção, podem vivenciar temas como angústia, culpa e frustração. Haverá prova maior para sua fé do que buscar purificação por um ato necessário — ou puramente acidental? A forma como os demais membros de sua religião os tratam nesse período também pode enriquecer o mundo de jogo e revelar as tensões internas de uma ordem religiosa.

Já os Proscritos Convictos elevam essa discussão a outro patamar. Explorar por que um personagem abandonou os deuses e sua antiga vida pode gerar histórias fascinantes — de grandes debates teológicos à simples percepção de que aquele caminho não era o seu.

“Mas não seria possível fazer essa interpretação com outra classe?” Bem, sim. É perfeitamente viável dizer que seu Guerreiro, Mago ou Ladrão tentou seguir a vida sacerdotal na juventude, falhou (ou foi rejeitado) e tomou outro rumo. O Proscrito, no entanto, possui uma vantagem única: ele ainda pode utilizar itens mágicos divinos e mantém habilidades que reproduzem, ainda que de forma limitada, aspectos do poder clerical. Isso reforça mecanicamente a ideia de que ele já foi um sacerdote.

Além disso, o Proscrito é uma especialização singular, pois rompe com a lógica padrão de Old Dragon, na qual trocas de classe normalmente ocorrem apenas no 1º nível. Uma das marcas mais interessantes do espírito OSR é que os eventos mais transformadores da vida de um personagem não acontecem na construção da ficha inicial, mas durante as aventuras. O Proscrito é um facilitador poderoso desse tipo de arco narrativo, permitindo de forma orgânica histórias de afastamento ou reconciliação com o divino.

Há inúmeros paralelos na cultura pop: do afastamento destrutivo do Clã Mangkwan em Avatar após a ruptura com suas tradições, ao arco de reconexão de Luke Skywalker com a Força em Star Wars: Os Últimos Jedi.

E, claro, nada impede que a classe seja utilizada para explorar outras ideias além da crise de fé.

Visões Alternativas

Outro ponto interessante do Proscrito é que suas habilidades funcionam muito bem para representar outros conceitos de personagem. Aqui entramos no campo da releitura (ou reflavor): mudar a descrição de um elemento do jogo sem alterar suas mecânicas. Por exemplo, usar as estatísticas de uma espada curta para representar um florete, ou as de um urso para representar um porco pré-histórico.

Com isso em mente, encerramos este texto com seis sugestões para dar novos significados à classe.

  1. Guerreiro de Ordem Religiosa

Graças à sua flexibilidade em combate e ao acesso a habilidades semelhantes às de um Clérigo, o Proscrito é excelente para representar guerreiros ou cavaleiros ligados a ordens sagradas.

Os Paladinos já contemplam parte desse conceito, mas o Proscrito permite maior liberdade de comportamento, sem as amarras de um código rígido ou restrições de alinhamento.

  1. Cultista

Aqui a lógica do Proscrito é invertida: em vez de o problema estar no sacerdote, ele está na divindade.

Muitos cenários de fantasia apresentam deuses — frequentemente destrutivos — que foram banidos, derrotados ou aprisionados. Proscritos devotos dessas entidades podem não conjurar magias até o 10º nível simplesmente porque seus senhores divinos não estão em posição de concedê-las.

Seja alguém que deseja restaurar um deus injustiçado ao seu trono, seja alguém que quer libertar o caos no mundo, essa é uma interpretação instigante da especialização — e um ótimo complemento ao Bruxo.

  1. Místico

Em vez de um sacerdote afastado da fé, este personagem é um estudioso do divino. Similar à personagens como o detetive John Constantine, ou o caçador de vampiros Van Helsing, esse Proscrito nunca foi um Clérigo — simplesmente alguém que estuda forças sagradas e profanas para seus próprios fins.

  1. Devoto

Em outra inversão interessante, a versatilidade do Proscrito pode representar uma pessoa comum dotada de grande fé e conhecimento tradicional.

Esse personagem nunca buscou o sacerdócio formal, mas aprendeu rezas, rituais e práticas sagradas suficientes para manipular itens mágicos divinos e replicar certas habilidades sacerdotais. A capacidade de conjurar magias no 10º nível pode simbolizar, finalmente, o reconhecimento de sua devoção por parte da divindade.

O fato de o Proscrito não se igualar nem aos combatentes plenos nem aos sacerdotes dedicados — mas desempenhar ambos os papéis de forma competente — o torna surpreendentemente adequado para representar figuras mais mundanas e humanas.

  1. Curandeiro

Talvez a releitura mais direta: o Proscrito como uma versão apenas ligeiramente fantástica de um curandeiro viajante.

Aqui ele se torna um “faz-tudo” que aprendeu, por necessidade ou curiosidade, a utilizar artefatos clericais — afinal, que médico não gostaria de ter acesso a magias divinas? A conjuração no 10º nível pode ser vista como um discreto gesto de aprovação dos deuses a alguém dedicado a salvar vidas.

  1. Sacerdote em Treinamento

Em mais uma inversão do conceito original, o Proscrito pode representar um Clérigo em formação — alguém que precisou se aventurar antes de desenvolver plenamente seus poderes.

Essa interpretação abre espaço para um arco narrativo interessante: eventualmente, o personagem pode concluir seu treinamento e tornar-se um sacerdote “de verdade” quando a história assim permitir — talvez como um marco importante após o 10º nível.


Bem, com isso, esperamos ter ajudado a inspirar os jogadores a dar uma chance a essa especialização tão singular de Old Dragon 2ª Edição. Mas sua leitura não precisa terminar aqui.

Quer saber mais sobre as religiões de Valansia, o cenário base do sistema? O Cenário de Campanha: Heróis de Valansia traz mais detalhes sobre as grandes fés da região — e sobre como um sacerdote pode falhar diante delas.

Quer explorar um mundo sombrio onde talvez os Proscritos estejam certos? O Cenário de Campanha: Legião - A Era da Desolação leva você a Kardur, uma terra onde nem os milagres dos deuses vêm sem custo.

Prefere lidar com o choque entre religiões tradicionais e um deserto alienígena? O Cenário de Campanha: ARKHI oferece inspiração para sacerdotes e renegados nas areias negras.

Ou quer abordar a religião em um contexto histórico, como a Inglaterra das invasões saxãs? O Guia de Campanha: Senhores da Guerra pode ser o ponto de partida ideal.

Até a próxima jogadores — e boas aventuras!