A performance: Como um bardo se expressa?
DuVal é um cidadão do Mal, sediado no Sul de Minas Gerais. Apaixonado por café da manhã e amante do RPG, um delírio coletivo de pequena grandeza.
O carisma do bardo, seu atributo mais importante no sentido das artes performáticas, relaciona-se a uma série de fatores: a forma como fala (gírias, sotaque, uso de palavras incomuns ao léxico padrão, tom de voz, enfim), sua postura espontânea, o trato pessoal, a maneira de se vestir e a aparência física. Todos esses elementos atuam como fatores passivos e ativos, exercendo considerável magnetismo sobre outras pessoas.
O bardo é aquela figura que, no conceito mais tradicional da classe, costuma ser bem aceito e bem recebido. Ele alimenta os habitantes de uma Vila ou os frequentadores de uma taverna com notícias, informações e fofocas, fazendo isso com facilidade ao se entrosar com as pessoas por meio de sua arte.
Bardos não vivem só de música. Muitos são versáteis e utilizam diversos tipos de performances para alcançar seu interlocutor. As mais comuns abrangem o canto/música, a oratória e as baladas heroicas, e dentro de cada uma dessas áreas há inúmeras possibilidades de desdobramento e personalização.
É plenamente possível afirmar que essas performances fazem parte da cultura dos mais diversos povos desde tempos remotos, atuando tanto como instrumentos de diálogo verbal quanto de diálogo não verbal.
A busca pelas letras de uma canção, poema ou discurso é capaz de desencadear profundos processos de transformação pessoal no artista. Isso ocorre como consequência da reflexão necessária para criar e compor expressões de sentido, bem como da busca pela representação de emoções e sentimentos esperados na atuação, alcançados por meio de observação, treino e prática constantes.
As performances artísticas podem ou não ser acompanhadas pelo instrumento musical do bardo, ou mesmo por colegas ao seu lado. O mais comum é que a música cantada seja embalada por uma harmonia instrumental, em sintonia e na mesma afinação, soando de forma uníssona.
A oratória e a balada heroica podem funcionar muito bem sem acompanhamento musical. Ainda assim, adicionar um suporte instrumental ao texto pode significar agregar mais emoção à obra. A oratória, porém, exige, na maioria das vezes, maior liberdade corporal, tornando mais difícil o uso de instrumentos. Embora isso não impeça o bardo de performar com um, ou ao som do instrumento de algum companheiro.
A Expressão Performática
É o momento em que o bardo utiliza seus talentos artísticos com o objetivo de afetar o mundo ao seu redor. Sempre que faz uso de suas habilidades, ele estará performando. O sentimento expresso pode ser, para ele, algo banal; o que realmente importa é sua capacidade de transmitir ao público a emoção pretendida. Para isso, o bardo interpreta e atua.
A expressão performática pode ocorrer por meio da música, por exemplo, a forma de arte mais comum associada ao bardo. No entanto, por ser artisticamente multifacetado, o bardo também se destaca como mestre da oratória e das baladas heroicas. Cada uma dessas artes abre um leque de possibilidades, que serão abordadas a seguir.
A Música e o Canto
São compostos por palavras carregadas de melodia, ritmo e intenção. Suas letras falam sobre algo que o bardo considera relevante para o momento, trazem reflexões, contam uma história, ou até mesmo podem ser apenas a junção de palavras que soem divertidas. Enfim, não há limites para a criatividade.
MELODIA E HARMONIA
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Vale mencionar que a melodia é uma sequência de notas que forma uma linha musical. Quando você assobia uma música, essa é a melodia, o jeito de cantar. Já a harmonia é a combinação de sons produzidos por um ou mais instrumentos, com a função de acompanhar e complementar essa melodia.
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O canto pode ser composto por uma letra (um texto proferido de forma melódica), ou pode ser executado apenas por meio de técnicas vocais, como o vocalise e o melisma. Essas técnicas consistem em cantar uma vogal ou sílaba (como “óóóóóóó”, “ó, ó, ó”, ou “láááá, lá, lá, lá”) em diferentes tons, permitindo que a melodia percorra diversas notas.
O canto costuma ser acompanhado pela harmonia de um instrumento musical. Sem esse acompanhamento, ele se torna um canto a cappella (que é a execução de uma melodia sem qualquer suporte harmônico), em que o bardo utiliza apenas a própria voz como instrumento musical.
O ato de cantar também faz uso, e se beneficia, da linguagem corporal. A performance e a atuação colaboram diretamente na transmissão da mensagem e dos sentimentos que o bardo busca expressar.
A Oratória
Trata-se do uso de palavras pronunciadas no ritmo natural da fala, com ou sem rima, que podem assumir um tom calmo ou enérgico. Diferente do canto, a oratória não atribui características melódicas às palavras, mas se baseia em uma construção cuidadosamente planejada, com a intenção de causar um efeito em quem as ouve.
A oratória atua sobre a razão, a vontade e os valores do público. Seu impacto visa ser emotivo ou persuasivo. Comumente, tem o objetivo de transmitir uma mensagem poderosa o suficiente para influenciar, inspirar ou mobilizar os ouvintes.
Quando um bardo discursa diante de um exército prestes a entrar em combate, o som de cornetas ou o ribombar de tambores pode servir como um excelente reforço ao discurso. Da mesma forma, ao narrar para uma plateia uma aventura vivida por seu grupo, o acompanhamento de flautas ou das cordas de um alaúde pode ajudar a distinguir momentos de tensão dos instantes mais tranquilos. Nesse sentido, a oratória pode ou não ter acompanhamento harmônico musical.
A oratória abrange outras habilidades, tais como: a atuação, o discurso, o poema e a rima. No discurso, a retórica e a expertise do bardo são colocadas à prova, bem como sua capacidade de se conectar com seus interlocutores.
Balada Heroica
Trata-se de poemas narrativos que têm a intenção de dar um tom épico a um acontecimento, por mais banal que ele seja. Uma boa balada tem o poder de transformar qualquer um em herói ou vilão. Geralmente essas narrativas envolvem aventuras de heróis sobre os quais o bardo ouviu falar, ou mesmo dos aventureiros que andam com ele.
As baladas heroicas não tem como objetivo inventar histórias, apenas ajustar e valorizar detalhes de fatos já existentes, de modo que rendam uma crônica mais emocionante e aventuresca, passível de ser narrada ou cantada no tempo que o artista julgar necessário.
Elas podem ser construídas com palavras que transcendem a comunicação cotidiana, utilizando uma linguagem densa, capaz de expressar muito com pouco, além de um ritmo próprio que atende às necessidades da cadência e da métrica escolhidas pelo artista.
Por outro lado, também podem assumir uma forma mais simples, incorporando ao discurso frases rimadas e conectadas entre si, seguindo uma métrica mais acessível e de maior apelo popular. Tudo depende do efeito que o artista deseja alcançar.
A partir da métrica, das rimas, das expressões de sentido, das metáforas, da musicalidade e das imagens transmitidas, o poema é composto e ganha forma de maneira subjetiva na percepção do ouvinte. Há aqueles que apreciam apenas a beleza harmônica das palavras e da performance do bardo, enquanto outros captam a mensagem mais profunda e estabelecem conexões com o significado real pretendido pelo artista.
Em um discurso, a fala do bardo deve estar carregada de força expressiva e emocional, com uma interpretação repleta de intenção artística, onde corpo, voz e ritmo se unem para dar vida às palavras.
Enquanto declama um poema ou narra suas histórias, o bardo pode ou não ser acompanhado por harmonia musical. Quando presente, esse acompanhamento deve ser suave e jamais competir com a voz do artista.
Atuação
Seja no canto/música, na oratória ou na balada heroica, a atuação é um elemento implícito na performance de um bardo. É ela que permite aos espectadores não apenas ouvir suas palavras, mas vivenciar a narrativa.
Atuar é a habilidade de demonstrar, em tempo real, sentimentos e emoções, encarnando os personagens de uma história. Trata-se de uma competência fundamental para tornar narrativas mais vívidas ou simplesmente para entreter uma plateia.
A atuação inclui pantomimas e técnicas de expressão: corporal (como dança, sapateado, imitação, malabares, entre outras), vocal (projeção de voz, imitação de sons e de outras vozes) e emocional (simulação de sentimentos e estados emocionais).
Embora qualquer personagem possa atuar, o bardo, por suas características artísticas, é a única classe capaz de fazê-lo com maestria, contando com maior variedade de recursos e maior poder de convencimento.
Um bardo pode, por exemplo, simular um choro convincente, com lágrimas e tudo, enquanto personagens de outras classes dificilmente alcançariam o mesmo nível de verossimilhança. Portanto, testes que normalmente seriam difíceis para outras classes são considerados normais quando realizados por um bardo.
A Performance
A performance compreende toda a apresentação de um bardo, com início, meio e fim. Cada performance completa ocupa o tempo de 1 turno (cerca de 10 minutos). Por isso, sempre que o objetivo for realizar uma performance com a intenção de impressionar, distrair ou encantar pessoas, o bardo precisa conseguir a atenção de todos ao seu redor, ou de um alvo específico, se for o caso.
Desde que não esteja em meio a um combate ou fuga (como situações de tensão, desespero ou grande hostilidade, cabendo ao mestre julgar quando isso é ou não possível), o bardo pode somar seu bônus de carisma ao teste de reação (LB1, pág. 78) sempre que realizar uma performance.
Chamando a atenção da plateia
Quando o bardo sobe ao palco, antes de iniciar o espetáculo, e se for aplicável, ele deve realizar um teste de chamar a atenção (teste de carisma). Isso pode ser representado por uma piada bem colocada, um sorriso simpático, um comentário oportuno, uma demonstração de respeito ou qualquer outro recurso utilizado para conquistar o público.
Em seguida, ele se apresenta à plateia e anuncia o que pretende fazer (fica mais legal se for algo que venha do roleplay do jogador). Alternativamente, pode simplesmente emitir uma nota com seu instrumento ou com a própria voz. Seja como for, o bardo precisa de um gesto inicial capaz de captar a atenção de todos.
Não passar no teste de chamar a atenção significa que o bardo precisa disputar a atenção da plateia. Nesse caso, ele pode tentar novamente, mas agora terá um modificador difícil. Se falhar na segunda tentativa, um novo teste pode ser feito, agora com modificador muito difícil. Se tornar a falhar… Lamento, mas o público não estava receptivo. As pessoas estavam dispersas ou já começaram a se recolher. Cabe ao mestre explicar, dentro da narrativa, por que o bardo não conseguiu chamar a atenção de quem ele pretendia.
O QUE SIGNIFICA FALHAR EM CHAMAR A ATENÇÃO DA PLATEIA?
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Se não passar no teste de chamar a atenção o bardo não invoca um teste de reação da plateia. Ele pode até se apresentar, mas ninguém lhe dará atenção: sua voz ou instrumento será engolido pelo burburinho do ambiente. Em alguns casos, o bardo pode até ser retirado do palco, ou o taverneiro pode pedir que ele pare.
A presença do bardo pode causar estranhamento, especialmente em ambientes lúgubres, com poucas pessoas ou pouco afeitos a esse tipo de espetáculo. O local pode ser frequentado por uma facção específica que desconfia de estranhos, independentemente de talento. As pessoas podem simplesmente não apreciar poemas ou longos discursos, podem não ter simpatizado com algum dos companheiros do bardo, ou ainda estarem abatidas por uma tragédia recente. Em contrapartida, um lugar mais aberto e amigável pode estar ansioso por uma apresentação.
Cabe sempre ao mestre julgar se esse teste é ou não necessário. Também coloque nessa balança o quanto aquele público pode estar ávido por notícias de fora ou interessado em ouvir histórias de quem percorre o mundo.
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Passar no teste significa que o bardo obteve a atenção da plateia e gerou expectativa. Algo em sua abordagem despertou curiosidade ou interesse. E é a partir desse ponto que a performance começa de fato.
Agora, para que a apresentação seja satisfatória, o bardo deve então invocar um teste de reação da plateia. O bardo nunca fará algo estapafúrdio ou tocará mal seu instrumento: a questão aqui é que o público nem sempre estará receptivo ou terá a capacidade de se emocionar ou interpretar muito bem o que é apresentado. Por isso, a tabela de Reação da Plateia é fundamental: ela define o quanto o bardo foi capaz de afetar emocionalmente a plateia, e não se ele se apresentou bem ou mal.
Enquanto o bardo se apresenta, role 2d6 para realizar o teste de reação da plateia, somando o modificador de carisma do bardo. O objetivo é alcançar um resultado entre 7 e 12.
| 2d6 | Reação | Descrição |
|---|---|---|
| 2-3 | Hostil | Algo na apresentação desagrada profundamente a plateia, que reage de forma agressiva. Vaias, xingamentos, objetos arremessados (como tomates podres) ou mesmo pessoas deixando o local em protesto são reações comuns. |
| 4-6 | Não agradou | A plateia não se envolve com a apresentação. As pessoas podem até assistir, mas ignoram o bardo. Alguns reclamam, outros vão embora. Caso a apresentação se prolongue, a tendência é que o clima se torne hostil. |
| 7-9 | Apresentação morna | O espetáculo encontra receptividade em parte do público. Algumas pessoas acompanham com palmas ou outras manifestações discretas, bêbados podem brindar, e há reações esparsas ao longo da apresentação. Ao final, é possível que ocorram alguns aplausos. |
| 10-11 | Espetáculo | O bardo consegue empolgar o público. O ambiente passa claramente a jogar a seu favor, e o sentimento da apresentação é transmitido com sucesso. Em um show de comédia, a maioria ri; em uma música alegre, muitos cantam junto. A apresentação afeta a maior parte dos presentes, e os aplausos ao final são garantidos. |
| 12+ | Memorável | Algo verdadeiramente único acontece. A apresentação envolve todos os presentes: o ambiente muda completamente a favor do bardo, as pessoas participam ativamente, interagem, pedem bis e podem atirar moedas no palco ou no chapéu. Os aplausos são intensos e, ao final, o público se aproxima do artista para parabenizá-lo, conhecê-lo melhor e, talvez, fazer convites. |
Exemplo: Biel, o bardo, com carisma 16, deseja subir ao palco de uma taverna e declamar um poema, acompanhado pela sua viela de roda. Para chamar a atenção do público, ele emite uma nota longa e melodiosa com o instrumento enquanto limpa a garganta.
O Mestre solicita um teste de chamar a atenção (teste de carisma). O jogador rola 1d20 e obtém um resultado 2. Biel passa no teste. As pessoas passam a prestar atenção: surge uma expectativa, embora ainda estejam indiferentes à sua presença, sabem que algo está para acontecer e aguardam o que virá a seguir.
Com a atenção da plateia conquistada, Biel começa a tocar sua viela de roda enquanto declama, com bela voz, um poema cuja intenção é falar sobre a vida e o momento de diversão. Seu objetivo é transmitir ânimo e alegria aos presentes.
Em seguida, o jogador rola 2d6 na tabela de Reação da Plateia e obtém os resultados 2 e 6, totalizando 8. Além disso, o carisma 16 de Biel concede um modificador de +2 às jogadas de reação. Assim, o resultado final é 10.
Biel proporcionou um verdadeiro espetáculo. Enquanto ele narrava o poema, boa parte da plateia permaneceu atenta, os aplausos foram garantidos ao final, e a apresentação transmitiu à maioria das pessoas o sentimento que ele pretendia evocar. Com certeza, Biel será convidad a se apresentar novamente.
Os resultados devem ser capazes de influenciar a estadia ou a passagem do bardo por aquele local, assim como do grupo que o acompanha. Cabe ao Mestre interpretar como o impacto do espetáculo, seja positivo ou negativo, bem como suas nuances, repercute entre aqueles que presenciaram a performance.
Uma boa performance pode fazer com que as pessoas ao redor se tornem mais receptivas, enquanto que uma performance ruim pode fazer com que elas se fechem mais. A tabela de Reação da Plateia oferece algumas ideias e exemplos, mas cada mundo é um mundo. Independente do cenário, os tomates podres SEMPRE estarão disponíveis, bem como os aplausos.